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Fundo Padrão

Trata-se com certeza, de superfícies e da obsessão de interferir nelas. Além de se referir ao espaço e territórios reais, Fundo Padrão refere-se a espaços conceituais e imaginativos, pessoais e coletivos. Como um caldo que participa na gênese de nossa pessoalidade e da construção de nossas paisagens, reais e imaginárias, ele compõe nosso sensível e é razão de constantes conflitos pela busca e encontro contínuo de novas relações com o mundo: experiências essas que ocasionam uma reconstrução de nossas bases, recriando novamente nossas paisagens, num ciclo de sensações reflexões e interações: movimento da vida e da transformação.

Deleuze em Pintura: el concepto de diagrama, 2007 coloca que a superfície branca é cheia de tudo, cheia do mundo que nos pertence, assim entende-se o suporte como um espaço já com significados anteriores ao ato artístico, sendo este ou outros suportes de linguagens um espaço que muito contém e no qual pode ser inserida a idéia de Fundo Padrão. Assim, de encontro à relação do cheio e do vazio, insisto em colocar que o vazio é sim um espaço cheio, assim como nos lembra Benedetti no poema Ese Gran Simulacro, 1955, que o esquecimento está muito cheio de memória.

O trabalho sobre o suporte, qualquer que seja, consiste então em sistemáticos abandonos e escolhas desse fundo que nos compõe. O fundo, não é um padrão homogêneo, conta sim com a repetição dos vícios dos costumes e dos lugares comuns nos quais o artista busca desconstruir à procura de novas percepções.

Perfurar, arranhar, de forma a querer ultrapassar a superfície a embalar; Criar camadas, de forma a esconder ou velar uma superfície anterior, unindo-se a ela mas também modificando-a são atos próprios da prática do desenho e da pintura, respectivamente. Este fazer é proposto aqui inclusive fora da situação tradicional dessas linguagens, com outros suportes e materiais, com o intuito de ressignificar assim os objetos e o próprio fazer da pintura e do desenho, na busca de novas reflexões por deslocamentos e aproximações.

Temas que passam pelo indivíduo solitário, em relação com os objetos e o espaço nos seus caminhos diários apresentam-se aqui nesta exposição sem necessariamente apresentar este indivíduo. As obras compõem uma seleção de trabalhos produzidos no período de 2005 a 2008.

Padrões próprios de papeis de parede de interiores aparecem em algumas obras, como em Pequeno Arquiteto, 2007, onde peças deste jogo infantil são embaladas por papel de parede, padrão utilizado em decoração no interior de casas, que simula imagens e cores para o conforto do lar, sendo aqui utilizados na própria construção de casa num universo infantil.

Ulcerações de cor, 2008 é um trabalho no qual foram utilizados jornais empilhados como suporte plástico, de forma a obter-se um bloco. A partir de recortes retiro pedaços de papel, de forma a perfurar este bloco informacional e crio nichos que foram preenchidos parcialmente com pigmentos de cor. É feito assim um depósito de cor em substituição ao padrão informacional, entidades cor, quase espirituais, se inserem em um espaço de poucos devaneios.

Água

Lo que la gotita pega nada nada lo despega